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05/06/2009 - 15h02
A triste realidade de quem sofre com as enchentes no Norte e Nordeste
Mariana Gonçalves, Mayrá Lima, Zema Ribeiro e Zoraia Nunes*

Entra ano e sai ano e as fortes chuvas que costumam cair no norte e no nordeste brasileiro continuam a deixar milhares de pessoas em uma situação de emergência. São famílias que perdem seus objetos, suas casas e, muitas vezes, perdem entes queridos. Políticas Públicas, no entanto, quando existem, demoram a surtir algum efeito para a população.

Até o dia 4 de junho, segundo a Defesa Civil, foram atingidos 532 municípios localizados em 13 Estados: Amapá, Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe, Amazonas, Pará e Santa Catarina. Os desastres deixaram, até então, 313.034 pessoas desalojadas,138.543 desabrigados/as e 64 mortos/as.

A Cáritas Brasileira traz, abaixo, depoimentos que mostram a realidade dos três Estados mais atingidos: Maranhão, Piauí e Ceará. A situação é dramática. No momento, convocamos a sociedade a ajudar aos nossos irmãos e irmãs que precisam da sua solidariedade. Os recursos serão aplicados no atendimento imediato das vítimas, na reconstrução de casas e na recuperação dos meios produtivos. Em 2008, quando as chuvas atingiram fortemente o Nordeste, foi arrecadado R$ 1.026.780,00.

OUÇA - Escute aqui o programa Salão Verde, Rádio Câmara, veiculado no dia 15/6/2009. O primeiro bloco do programa, Vítimas do clima (10 22"), traz entrevista com o secretário da Cáritas Regional Maranhão, Ricarte Almeida.

Confira as contas para doações:

Banco do Brasil: Agência 3475-4, c/c: 23091-X
Banco Bradesco: Agência 606, c/c: 68000-1
Caixa Econômica Federal: Agência 1041, operação 003, c/c: 935-1
(Para DOC, o CNPJ da Cáritas é: 33.654.419/0001-16)

MARANHÃO: “Não sei o que será de nós...”, lamenta desabrigado

No Nordeste, o Maranhão, atualmente, é o Estado que tem o maior número de municípios atingidos (119). São 112.233 desalojados/as e 52.657 desabrigados/as. No município de Bacabal, o Parque de Exposições virou a “casa” temporária de 230 famílias. Falta água potável. Banheiros são improvisados com lonas pretas para que os adultos possam tomar banho. Para as necessidades fisiológicas, no entanto, precisa-se caminhar até um matagal que circunda o local.

A casa de barro do Sr. Raimundo (62) foi levada pelas águas. Ele não tem para onde voltar e está preocupado com o que vai fazer quando tiver que sair do abrigo público. “Não sei o que será de nós. Não temos condições de fazer outra (casa)”, disse ao confeccionar redes de pesca.

Dona Maria (62), também desalojada, convive com o esposo, o cunhado, uma filha e três netos no abrigo. A comida, muitas vezes, resume-se ao arroz, proveniente da prefeitura de Bacabal.  “Aqui não tem jeito. Somos nove pessoas e comemos quase 5 Kg de arroz a cada refeição. O que vem da Prefeitura não é o suficiente (2k de arroz semanalmente). Aí fica difícil, pois não tem mistura. Sou velha e não tenho condição de pescar como faço todos os dias quando estou na minha casa”, lamentou.

Por outro lado, a solidariedade também se encontra naqueles que oferecem seu lar para abrigar quem já tudo perdeu. D. Aldenora foi uma das que encontrou um lar temporário diferente dos abrigos públicos, mas as chuvas trouxeram outro trauma: o afogamento de uma neta no Rio Mearim. “Saíram de carroça minha filha, Grande (apelido), e as crianças para passear. Depois de 5 minutos, escutei dois gritos de socorro. Percebi que seis pessoas estavam se afogando. Chamei meu filho mais velho para ajudar e nós dois nos jogamos na água. Com muita dificuldade conseguimos salvar a Grande e quatro crianças, mas infelizmente uma das netas morreu afogada...a Kellinha de apenas sete anos. Encontramos o corpo após 1 hora de incansável procura. Descobrimos que o boi  que guiava a carroça foi atingido pelo Puraquê (peixe que causa um choque de grande intensidade)”, contou ela.

PIAUÍ: “Não sobrará pedra sobre pedra”, afirma agente Cáritas

O Estado do Piauí continua em alerta por conta das enchentes. Segundo a Defesa Civil (4/6), são 91.634 pessoas desalojadas ou desabrigadas. Como se não bastassem as chuvas, no dia 27 de maio, a barragem Algodões 1, na zona rural de Cocal, 268 km ao norte de Teresina, rompeu, liberando uma tromba d’água de 40 milhões de metros cúbicos. Morreram quatro pessoas. Mais de 120 casas foram destruídas.

De acordo com o agente Cáritas Marcos Terto, a equipe se deparou com uma verdadeira tragédia anunciada. “Aqui parece que se concretizou a expressão: não sobrará pedra sobre pedra. No lugar onde havia mais de 100 casas, propriedades, plantações, criação de animais, árvores de mais de 10m de altura, havia apenas o caos. Um monte de pedras, árvores arrancadas, areia e pouquíssimos vestígios da existência de moradias”, conta Terto.

Segundo os depoimentos das pessoas, coletadas pela equipe de agentes Cáritas no local, a “pequena tsunami” levou cerca de uma hora para passar. Dona Mazé, moradora da cidade de Cocal afirma que foi possível ouvir o barulho das águas arrastando e quebrando tudo que encontrava pela frente a cerca de 3 km de distância de sua residência. "Era possível ainda ouvir pessoas gritando desesperadas. Outras pessoas afirmaram também que animais como porcos, cabras, ovelhas e até bovinos foram levados como se fossem formiguinhas. Hoje foram vistos estes animais enganchados em cercas e em árvores", relata a moradora.

CEARÁ: “Falta compromisso do Poder Público”, avalia padre

No Ceará, são 43.035 desalojados e 26.732 desabrigados. Uma das regiões mais atingidas foi em Itapipoca. Estragos na lavoura ocorreram em grande extensão. O trabalho do Padre Antônio Lopes, vice-presidente da Cáritas Diocesana de Itapipoca e também coordenador do Ministério de Caridade, que engloba as Pastorais Sociais, tem sido incansável. Além de coordenar o trabalho das Pastorais, ele faz questão de ir pessoalmente aos abrigos para levar, além de donativos, uma palavra de conforto e proporcionar momentos de oração.

Na visão de padre Antônio, “cada vez mais o ser humano é levado à desesperança”. Ele considera que a condição financeira precária da grande maioria da população é uma das causas dessa situação. “As pessoas são obrigadas a construir suas casas nesses espaços (áreas de risco) e, quando chega esse tempo, são atingidas. A grande questão é a social e financeira. Falta também compromisso das autoridades e seriedade do poder público”, disse.

Com relação à atuação da Cáritas e das Pastorais Sociais nas próximas etapas que se seguem a esse período emergência, padre Antônio considera que a ação deve se dar de duas formas: “cobrando ação dos poderes e articulando a comunidade para fazer mutirões de reconstrução das casas”. Uma preocupação que o religioso expressa é com relação à possibilidade das casas serem reconstruídas nas mesmas áreas que agora estão alagadas. “Vamos nos colocar a respeito disso e procurar evitar que isso aconteça”, afirma ele.

*Comunicadoras/es da Rede Cáritas Brasileira. 

Leia Mais:

>> Caritas Internationalis faz apelo em favor das vítimas no Brasil

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